
O tema “usos e costumes” é uma velha
questão nos círculos pentecostais. A tradição faz parte de todas as
instituições e sociedades. Assim, é correto afirmar que todas as igrejas têm os
seus costumes, impostos ou espontâneos, mas igualmente estabelecidos. Por muito
tempo se confundiu costumes com doutrina, mas há diferenças significativas
entre esses dois conceitos.
O que é costume? O lexicógrafo Aurélio Buarque de
Holanda definiu costume como “uso, hábito ou prática geralmente observada” [1].
O dicionarista Adriano da Gama Cury definiu, de maneira mais completa, a
palavra costume como “uso, prática habitual; modo de proceder; característica,
particularidade; prática jurídica ou religiosa não escrita, baseada no uso;
moda; traje característico ou adequado...” [2]. Essas definições mostram que o
costume é um hábito repetidamente adotado por um determinado grupo social. Os
costumes fazem parte da identidade de uma instituição.
O que é doutrina? No Novo Testamento a palavra mais
usada para doutrina é didache e significa ensino, instrução, tratado ou
doutrina. Segundo o teólogo Claudionor Corrêa de Andrade, doutrina é a
“exposição sistemática e lógica das verdades extraídas da Bíblia, visando o
aperfeiçoamento espiritual do crente” [3]. Doutrina, portanto, é o resultado do
um ensino teológico, adotado por uma denominação ou religião.
O pastor Antonio Gilberto apresentou em seu livro Manual
da Escola Dominical [4], algumas diferenças entre usos e costumes, e neste
artigo será apresentada outras diferenças, além da lista exposta pelo teólogo
pentecostal.
a) A doutrina é de origem divina, o costume é de
origem humana. A
doutrina é divina pois está baseada na inspirada Palavra de Deus. Para uma
ideia ser doutrina bíblica é preciso que ela esteja exposta por todo o texto
sagrado. Nunca uma verdadeira doutrina é baseada em textos isolados.
O costume é imposto por convenções humanas de
maneira espontânea ou obrigatória, sendo assim, o costume é humano. Há muitos
que tentam achar textos bíblicos para justificar a perpetuação de sua tradição,
mas normalmente praticam a eisegese [5], ou seja, dizem o que bem querem
e tentam justificar na Bíblia. O teólogo Esdras Costa Bentho, escrevendo sobre
a eisegese, disse:
O intérprete está cônscio de que a
interpretação por ele asseverada não está condizente com o texto, ou então está
inconsciente quanto aos objetivos do autor ou do propósito da obra. Entretanto,
voluntária ou involuntariamente, manipula o texto a fim de que sua loquacidade
possa ser aceita como princípio escriturístico. [6]
Tentar justificar na Bíblia as tradições é uma
tarefa que tem levado a muitas distorções bíblicas. O melhor é reconhece a
humanidade do costume.
b) A doutrina é imutável, o costume muda. A
doutrina é permanente, ela nunca muda. A doutrina da “justificação pela fé”,
exposta principalmente nos primeiros capítulos de Romanos, nunca mudou e nem
deve ser mudada. Doutrina (bíblica) mudada é heresia. Quando Lutero resgatou a
doutrina da justificação pela fé, ele orientou a igreja a voltar na perspectiva
bíblica sobre o assunto. São passados mais de dois mil anos e essa doutrina
nunca mudou no verdadeiro cristianismo.
O costume não é imutável. No Brasil era comum os
cidadãos andarem pelas ruas de chapéus, tanto homens como mulheres, passados os
anos não há mais esse costume no país. Antigamente, os pais escolhiam com quem
a sua filha casaria, mas também esse costume mudou. É necessário que o costume
mude, pois ele está ligado à cultura local, e toda cultura é dinâmica. Mudar
alguns costumes não significa passar do são para o diabólico, como muitos
pregam. A mudança é inevitável e deve ser bem orientada, mas como enfatizado, é
sempre necessária. É bem relevante o que o teólogo britânico John Stott
escreveu no seu livro Cristianismo Equilibrado [7]:
Quando resistimos a mudanças- sejam
elas na igreja ou na sociedade devemos perguntar-nos se são na realidade, as
Escrituras que estamos defendendo(como é nosso costume insistir ardorosamente)
ou, se ao contrário, é alguma tradição apreciada pelos anciãos eclesiásticos ou
de nossa heranças cultural. Isto não quer dizer que todas as tradições,
simplesmente por serem tradicionais, devam a qualquer custo ser lançadas fora.
Iconoclasmo sem crítica é tão estúpido quanto conservantismo sem crítica, e é
algumas vezes mais perigoso. O que estou enfatizando é que nenhuma tradição
pode ser investida com uma espécie de imunidade diplomática à examinação.
Nenhum privilégio especial pode ser-lhe reivindicado.
Algumas igrejas estão impondo mudança de costumes,
isso é um erro, que sempre levará a exageros. Os costumes mudam naturalmente,
mas devem seguir orientação para não levar a práticas antibíblicas. As igrejas
sem orientação pastoral tem aderido a costumes extravagantes, como bailes funks
em meio ao culto. Tudo deve ser feito com equilíbrio, nada de permissividade em
excesso e nem de legalismo. A igreja, também, não pode impor "tabus
comunais".
c) A doutrina é universal, o costume é local.
A doutrina é universal no sentido que é para todos
os povos em todas as culturas. Proclamar Jesus como Salvador faz sentido no
Brasil em 2007, como para os indianos que foram evangelizados pelo apóstolo
Tomé, o primeiro missionário daquela nação, ainda no primeiro século da Era
Cristã.
O costume é local. Os homens na Escócia usam um
tipo masculino de saia. No Siri Lanka é, também, costume para homens a
vestimenta com saias. Enquanto a saia, na maior parte do Ocidente, é uma roupa
exclusivamente feminina. No Brasil é comum comer peixe cozido ou frito, mas no
Japão se come peixe-cru.
d) A doutrina santifica, o costume não santifica.
A doutrina bíblica santifica o crente mediante a
Palavra de Deus. Jesus disse: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a
verdade” (Jo 17.17). O ensino da Palavra de Deus, ou seja, das doutrinas
bíblicas, é um dos meios que Deus usa para levar o crente a uma vida reta,
assim como escreveu o salmista: “Como purificará o jovem o seu caminho?
Observando-o conforme a tua palavra”(Sl 119.9). John Henry Jowett disse: “Você
não pode abandonar os grandes temas doutrinários e ainda assim produzir grandes
santos”. O pastor A. W. Tozer escreveu: “O propósito que está por trás de toda
doutrina é garantir a ação moral”. Por isso, é bom lembrar que a doutrina
bíblica produz, naturalmente, bons costumes.
O costume não pode santificar. Quem acredita na
santificação por meio dos costumes, normalmente, é um escravo do legalismo. O
pastor Antonio Gilberto escreveu a respeito dos erros em relação a santificação
e citou o engano de associar exterioridade com santidade: “Usos, práticas e
costumes. Esses últimos, quando bons, devem ser o efeito da santificação, e não
a causa dela”[8]. E bem relevante o que escreveu o pastor Ciro Zibordi no
prefácio do livro Verdades Pentecostais:
Conservar não significa possuir uma
falsa santidade, fazendo dos usos e costumes uma causa, e não um efeito. Como
pode ser ao longo dessa obra , a observância da sã doutrina leva-nos a ter
santidade interna e externa, o que implica vida santa a partir do espírito (1Ts
5.23) e manutenção dos bons costumes. Estes, pois, não devem gerar doutrinas,
como vem acontecendo em algumas igrejas não legitimamente avivadas, para
prejuízo de seus membros. [9]
O farisaísmo se caracterizava por associar sua
obras com salvação. Há muitos que fazem dos costumes “doutrinas” e, assim,
pensam que para serem salvos precisam fazer isso ou aquilo. Como dizia Lutero:
“As boas obras não fazem o homem bom; mas o homem bom pratica as boas obras”. A
inversão dessa ordem cria escravos do farisaísmo e não servos do Altíssimo.
e) A doutrina é um princípio, o costume é um
preceito.
Há diferença entre princípio e preceito? Sim. O
pastor José Gonçalves escreveu: “Os preceitos apontam para princípios e não o
contrário. Um princípio é aquilo que está por trás do preceito ou norma”[10].
Por exemplo, usar uma roupa social em um tribunal é uma norma, um preceito. O
princípio ou doutrina por trás dessa norma é que o tribunal é um lugar sério e
não ambiente de entretenimento, onde se possa ir de jeans ou short.
f) A doutrina é verdade absoluta, o costume é
uma verdade relativa.
A doutrina é sempre verdade absoluta, ou seja, é
para todos, em todas as épocas e em todos os lugares. O costume é relativo,
como lembra Geremias do Couto:
Ao insistirmos nos absolutos, não
queremos afirmar que não haja também conceitos relativos. Essa diversidade se
manifesta, por exemplo, nas comidas típicas de cada país, nos estilos da arquitetura,
no estilo da vestimenta e até mesmo em relação à hora de dormir, que depende do
fuso horário. Mas tais circunstâncias relativas acabam apontando para
princípios biológicos absolutos; todos precisam alimentar-se, todos precisam
dormir. [11]
O costume, por ser relativo, não deveria ser
imposto como obrigação. Era comum missionários europeus tentarem impor os
costumes do norte em países da Ásia e da América. Hoje, o conceito de
“transculturação” está ajudando muito em relação a esse problema.
Há muitas outras diferenças entre doutrina e
costumes, mas fica apontado que ambas não são a mesma coisa, porém estão
ligadas. O bons costumes são aqueles que não escravizam o crente, colocando um
jugo que Jesus tirou na cruz, mas sim, é resultado da boa doutrina.
Por Gutierres
Siqueira